A busca da reabilitação


em 07/02/2012, às 23h03min.

Crack, cocaína e maconha. Estas são as principais dependências dos detentos do Presídio Estadual de São Borja. É o que conta o grupo de apenados que participa do Projeto Renascer, idealizado pelo Hospital Ivan Goulart para atender à população carcerária de São Borja. Usuários de drogas, muitas vezes, são expostos precocemente ao ambiente prisional, o que prejudica sua capacidade de reabilitação. As equipes do Hospital que semanalmente se dirigem à penitenciária têm um objetivo claro: amenizar esse quadro e criar condições para que estas pessoas possam sonhar com uma vida diferente.

 

Chegamos ao presídio pontualmente às 9h da manhã, horário marcado para o início da reunião. Pode-se chamar de reunião, mas se trata de uma conversa. Uma conversa aberta entre os profissionais e os detentos. Acompanho a assistente social Aline Henrich, uma das idealizadoras do projeto. Ela traz consigo a enfermeira Marília Lese, que participa do encontro pela primeira vez. Marília leva material informativo, vai falar sobre cuidados com a saúde, em trabalho conjunto ao da assistente social. É uma equipe interdisciplinar no tratamento da dependência: enfermeiros, psicólogos, psiquiatra, assistentes sociais, entre outros.

 

É uma quinta feira e faz bastante calor. Os detentos se acomodam na pequena sala de informática. Paradoxalmente à sua rotina diária no sistema prisional, homens e mulheres dividem o mesmo espaço. A participação deve ser voluntária, portanto, nem sempre a sala está cheia. Esse é um dos dias de pouca lotação.

 

O pequeno grupo, de cinco ou seis pessoas, aguarda o início dos trabalhos. A assistente social faz as apresentações iniciais. Há um novo membro entre os participantes, e ela aproveita para mostrar-lhe uma recapitulação dos objetivos do projeto, e dos motivos pelo quais todos ali estão reunidos. “Não estamos aqui para julgar, queremos apenas ouvir e orientá-los” diz, com calma, como se para amenizar a situação duplamente difícil: dependência química e sistema prisional.

 

A dependência é um conjunto de fenômenos psicológicos e comportamentais que afeta o usuário de drogas, causando-lhe conseqüências como confusão mental, aumento dos níveis de ansiedade e compulsão. O tratamento ofertado pelo projeto é realizado em três eixos: Ambulatorial, com o médico do presídio, para desintoxicação. Depois é feita avaliação e tratamento pela psiquiatra. E após, conclusão da reabilitação na comunidade terapêutica. Além disso, também inclui palestras sócio-educativas, discussões de temas, dinâmica de grupos, atividades de lazer e orientação religiosa.

 

O novo membro do grupo domina a arte da serigrafia, e se propõe, a pedido de todos, a fazer um desenho para confecção de camisetas do projeto Renascer. Por um breve momento a conversa se dispersa nas discussões sobre as camisetas. A assistente social conta que é benéfico estabelecer estes pequenos planos e objetivos, já que os detentos não tem muitas atividades. “Pensar e discutir os modelos de camisetas pode ser algo banal, mas os tira da ociosidade, é uma tarefa pequena, mas que os dá algo útil para usar o tempo”.

 

Já na meia idade, o homem conta a sua história. Ele usava drogas desde adolescente: “durante toda a minha vida, eu não me considerei dependente químico. Depois fui perceber que eu vivia somente em função da droga”, diz. Hoje faz quase três anos que se mantém limpo. A opção pela reabilitação, afirma, foi por causa da saúde, cada vez mais debilitada. “O uso da droga quase acabou com minha saúde. Se eu não parasse, ia me afundar”. Revela.

 

Uma das apenadas concorda, e complementa: “Além disso, lá fora já é muito complicado conseguir a aceitação. Somos sempre julgados, tratados como criminosos, a droga só nos prejudica” constata a moça de pouco mais de 20 anos de idade.

 

O modelo no qual a equipe do Hospital se baseia para implantação do projeto vem de um programa implantado nos Estados Unidos, chamado de “Justiça Terapêutica”. O sistema carcerário brasileiro sofre intermitentemente de superlotação. A justiça terapêutica aparece como uma medida de desafogo aos presídios, não só como combate à dependência química. Esse programa propõe que a legislação seja cumprida em harmonia com medidas sociais e tratamento para quem pratica crime em que a droga esteja inserida de alguma maneira.

 

“Essa nova filosofia reduz a reincidência, custa menos e afasta o usuário de drogas da pós-graduação do crime, que são os presídios”, explica o procurador de justiça Ricardo de oliveira silva, que acompanhou o emprego desse método nos EUA.

 

A enfermeira traz a sua mini palestra. Em pauta, prevenção de doenças, especialmente as sexualmente transmissíveis (DST). Não há números concretos sobre a presença de DST´s nos presídios, mas a estimativa dos órgãos de segurança é de que as taxas sejam altas. A população prisional é considerada como alto risco para infecções relacionadas às condições de confinamento.

 

Marília distribui folders informativos sobre as principais doenças, com métodos e explicações sobre prevenção e detecção dos sintomas, formas de contágio e os efeitos nocivos de cada uma das enfermidades. “Muitas dessas doenças não tem cura, apenas tratamento para controlar os sintomas, por isso a prevenção é indispensável” enfatiza. Os participantes fazem perguntas, questionam, tiram todas as dúvidas. São ensinamentos que, além de servirem durante o período em que cumprem pena, também são úteis na vida pós cárcere.

 

Aos detentos, é dada a tarefa de sugerir temas para os próximos encontros. Toda semana é assim, eles definem o que querem ouvir, aprender e discutir. Nos encontros, compartilham suas experiências, seu aprendizado, ao mesmo tempo em que recebem conselhos da assistente social. “Eles tem de estar estabilizados emocionalmente, e este trabalho ajuda nisso. O primeiro contratempo, a primeira decepção que tiverem depois que saírem do presídio, ou até antes, pode servir de estopim para que essas pessoas busquem a droga novamente. Devemos criar condições para que isso não aconteça”, esclarece Aline.

 

Um dos apenados, que pediu para não ser identificado, está no projeto desde o início, em outubro do ano passado. Entrou com o claro objetivo de se livrar do vício. “Eu estava perdendo tudo, especialmente a confiança da minha família. Sempre tive vontade de me recuperar, mas precisava de apoio. Há mais de dois meses que não uso drogas, e graças ao projeto, tenho apoio e pretendo me manter assim. Agora estou conquistando tudo novamente, principalmente minha dignidade.” Conta.

 

A reabilitação é supervisionada, combina tratamento e diversos incentivos para quem decide participar. O projeto ainda é novidade, mas já se trata de uma significativa contribuição do Hospital e sua equipe para a comunidade de São Borja.